Foz do Rio Amazonas no Atlântico, com a costa do Brasil desde Oiapoque no Amapá até Turiaçu no Maranhão (foto INPE)
A COP30 acontece numa encruzilhada histórica: a primeira década do Acordo de Paris coincide com a superação do limite de 1,5 ºC de aquecimento — o que transforma a conferência numa chance clara de virar a página da retórica para a implementação concreta de mitigação e adaptação. O desafio é enorme. Em um cenário em que governos negacionistas e interesses das indústrias fósseis seguem influentes, Belém terá de converter promessas antigas em ações mensuráveis, porque o tempo para reduzir as lacunas entre metas e resultados é curto. Como o Brasil pretende contribuir para esse salto da promessa para a prática?
O governo brasileiro chegou à presidência da COP30 com três diretrizes: defender o multilateralismo como único caminho plausível de resposta global; conectar o regime climático à vida cotidiana das pessoas, mostrando que a crise climática é um inimigo comum e imediato; e acelerar a implementação do Acordo de Paris, com ênfase no financiamento e na execução de políticas. Na prática, essas prioridades se traduzem em esforços para avançar o Global Stocktake (GST, ou progresso mundial em direção às metas do Acordo de Paris), identificar e corrigir lacunas nas NDCs (compromissos que os países assumem para reduzir suas emissões), pressionar pela efetivação de fluxos de financiamento (com propostas que falam em reformar o sistema financeiro internacional para buscar algo em torno de US$ 1,3 trilhão anuais para adaptação) e empurrar uma transição energética ambiciosa: triplicar capacidade renovável, dobrar eficiência energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis, além de conter o desmatamento e ampliar o reflorestamento com fiscalização e inclusão das populações locais.
Belém tem um significado estratégico: não é uma COP em petroestado e ocorre em um país democrático que permite ampla participação da sociedade civil e de povos indígenas, o que tende a colocar maior pressão por resultados ambiciosos. O Brasil entra com alguma credibilidade — conseguiu reduzir o desmatamento na Amazônia em relação ao período anterior e teve queda nas emissões em determinados vetores — mas carrega contradições palpáveis, como a previsão de expansão da exploração de petróleo, inclusive na Foz do Amazonas. Essa tensão entre interesses da economia fóssil e a agenda verde será um eixo central nas negociações.
O panorama global complica o avanço: nas últimas COPs foi fechado o “livro de regras” do Acordo de Paris e começaram-se negociações sobre financiamento, porém a ação concreta permanece aquém do necessário. Em 2025, apenas cerca de 30% dos países entregaram NDCs revisadas no prazo, e grandes emissores mantêm compromissos insuficientes ou ausentes. Esse baixo nível de ambição eleva o papel do GST e a necessidade de pressão diplomática em Belém — cenário em que o Brasil, como anfitrião, pode articular avanços mesmo diante do fraco comprometimento global.
Não se pode ignorar o peso histórico e atual das indústrias fósseis. Décadas de conhecimento interno sobre os riscos climáticos foram seguidas por “financeirização” de desinformação: em COPs recentes lobistas do setor muitas vezes superaram em número delegações de países vulneráveis. Em Belém, reduzir essa influência e garantir negociações mais honestas é parte da batalha por resultados efetivos.
A conferência na Amazônia também realça dimensões sociais e territoriais essenciais: proteção dos povos indígenas, combate a crimes ambientais — grilagem, garimpo ilegal, venda de madeira e tráfico de espécies — e o fortalecimento da capacidade estatal de comando e controle. Essas medidas são, simultaneamente, proteção ambiental e legitimidade para o Brasil como anfitrião comprometido com governança territorial.
O que o país precisa entregar para que sua presidência seja considerada bem-sucedida é claro: uma NDC exequível e verificável que inspire confiança; avanços concretos no combate ao desmatamento e em políticas de restauração; mecanismos viáveis para mobilizar financiamento para adaptação e mitigação; e processos de negociação transparentes, com participação plena da sociedade civil. Pergunto ao leitor: você acha que sediar a COP30 fortalece a posição diplomática do Brasil no clima? Quais medidas internas acredita serem prioritárias para que o país concilie desenvolvimento e proteção ambiental?
A COP30 é uma oportunidade singular para reafirmar liderança climática, impulsionar a implementação do Acordo de Paris e aproximar a negociação internacional da vida das pessoas. O cenário global permanece complexo e a maioria das nações ainda não renovou ambições suficientes, mas Belém pode ser o espaço para transformar compromissos em ações mensuráveis. O êxito brasileiro dependerá da capacidade de conciliar ambição com credibilidade interna — reduzir o desmatamento, apresentar uma NDC robusta, propor soluções reais de financiamento — e de enfrentar as tensões entre a velha economia fóssil e a transição para um modelo mais verde. Se bem aproveitada, a COP30 será mais do que vitrine: poderá ser um passo concreto rumo à implementação do que o mundo precisa.

