André Corrêa do Lago, Presidente da COP30 Foto: Xavier Lejeune.
A mais recente carta emitida pela presidência da COP30, assinada pelo embaixador André Corrêa do Lago, marca uma guinada explícita no foco global da agenda climática: “a adaptação deixa de ser coadjuvante e passa a ocupar o centro das negociações e das ações concretas”. Assim começa o documento:
Ao avançar nosso Mutirão Global contra a mudança do clima, a Presidência da 30ª sessão da Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) apresenta sua oitava carta à comunidade internacional, desta vez dedicada ao tema vital da adaptação climática. Nesta carta, convido as Partes e demais atores a refletirem sobre a adaptação sob novas lentes: como o próximo passo da evolução humana.
Na carta, são destacados elementos-chave para essa nova fase:
- A afirmação de que “a era dos alertas dá lugar à era das consequências”.
- A defesa da ideia de que a adaptação não é meramente um “tema local” ou marginal, mas um imperativo global , pois os impactos já estão acontecendo e seu custo exponencial se manifesta em pobreza, deslocamento populacional, perdas econômicas e sociais.
- A constatação de que os recursos destinados à adaptação ainda são “menos de um terço” do total do financiamento climático, o que revela uma lacuna persistente.
- A proposta de tratar a adaptação “como investimento”: cada estrada resiliente, cada escola adaptada ou sistema de alerta precoce “se paga em perdas evitadas”.
- A intenção de dar cada vez mais destaque ao tema da adaptação e romper o exclusivismo que mitigação de emissões teve até agora no escopo político, econômico e ético da agenda climática.
Esse posicionamento da presidência da COP30, que acontece em Belém no próximo mês, é uma confirmação poderosa de que as iniciativas de adaptação, resiliência e justiça climática devem deixar de ser coadjuvantes e se tornar protagonistas. Para a Aclimação, isso representa tanto uma validação da nossa visão como um chamado à ação.
Desde sua fundação, a Aclimação tem atuado com três pilares que agora estão sendo reafirmados no âmago da carta da COP30:
- Destravar finanças climáticas para adaptação e justiça climática: reconhecemos que não basta falar em mitigação de emissões — comunidades vulneráveis, cidades periféricas, municípios de médio e pequeno porte precisam de instrumentos financeiros específicos para se preparar, resistir e prosperar. A carta da COP30 fala exatamente disso: triplicar recursos, tratar adaptação como investimento e oferecer instrumentos inovadores (ex: swaps de dívida, empréstimos concessionais) para países vulneráveis.
- Construir pontes entre comunidades, prefeituras e empresas: a carta aponta que adaptação “afetará todos”, incluindo desde segurança alimentar, gestão da água, infraestrutura, cidades e regiões. Nessa lógica, soluções locais são fundamentais: a Aclimação vem trabalhando para conectar atores públicos, privados e comunitários em cadeias de valor de resiliência, de modo que a resposta à crise climática seja construída de baixo para cima, com protagonismo local.
- Premonição de uma nova lógica de desenvolvimento sustentável: nossa proposta sempre foi ver adaptação não como custo, mas como oportunidadede desenvolvimento da economia local, empoderamento comunitário e justiça social. A carta da COP30 usa a expressão “próximo passo da evolução humana” para adaptação. Ou seja: o que a Aclimação já vinha chamando de “resiliência transformadora” agora está inscrito como narrativa internacional.
Em resumo: nosso propósito, foco e metodologia dialogam diretamente com as diretrizes que emergem da COP30. Ou seja, **nossa visão se mostra premonitória** — está alinhada com o que o regime climático internacional está finalmente priorizando.
Vamos olhar alguns trecho chave da carta e extrair de cada um deles implicações práticas para a Aclimação e para as parcerias que queremos construir:
“Sem adaptação, a mudança do clima se torna um multiplicador da pobreza, destruindo meios de subsistência, deslocando trabalhadores e aprofundando a fome.”
Isso reafirma que a adaptação não é uma “opção estética” ou “tema secundário”, mas condição de sobrevivência humana e de justiça social. Portanto, nosso trabalho junto a comunidades vulneráveis (bairros, municípios vulneráveis, populações periféricas) ganha ainda mais urgência. Financiar, capacitar localmente, envolver as pessoas — não apenas como beneficiárias, mas como co‑criadoras — é essencial.
“Os recursos destinados à resiliência ainda representam menos de um terço do total do financiamento climático”
Há um gap financeiro estruturado: a adaptação está subfinanciada historicamente. A Aclimação pode atuar como facilitadora, catalisadora desses recursos, seja via parceria com bancos de desenvolvimento, seja via fundos de impacto, seja via mecanismos inovadores de financiamento (crowdfunding climático, parcerias público‑privadas de resiliência). Criar instrumentos financeiros adaptados (escala municipal, comunitária) torna‑se um diferencial competitivo.
“Cada estrada resiliente, cada escola adaptada ao clima, cada sistema de alerta precoce se paga em perdas evitadas.”
A narrativa de “custo” dá lugar à narrativa de “investimento inteligente”. Para a Aclimação, isso significa que precisamos articular bem os benefícios econômicos (evitar perdas, manter produtividade, reduzir riscos de ativos) e sociais (reduzir desigualdades, proteger vidas) de nossos projetos. Isso ajuda a atrair empresas (que enxergam ofertas de segurança para seus próprios ativos e cadeias), prefeituras (que veem melhora no serviço público e menor custo de recuperação) e comunidades (que ganham protagonismo e resiliência).
“A adaptação à nova realidade climática deve ser encarada como ‘o próximo passo da evolução humana’.”
Esse posicionamento simbólico eleva o tema da adaptação para além da “gestão de crises”. Trata‑se de transformação estrutural. A Aclimação pode se posicionar como agente pioneiro dessa transformação: não apenas mitigação ou redução de emissões, mas reconfiguração de como comunidades, cidades e economias se preparam e se adaptam ao clima que já é (e continuará) diferente.
Um dos grandes desafios da adaptação é justamente conectar a agenda social‐comunitária com a agenda de finanças climáticas de modo a gerar fluxo de recursos, medir impacto e garantir equidade. A carta da COP30 aponta para isso, quando fala em empréstimos concessionais, instrumentos inovadores como swaps de dívida por investimentos em resiliência, e enfatiza que o setor público continua central.
Para a Aclimação, isso reforça três linhas de atuação:
- Criação de mecanismos financeiros adaptados ao nível local: por exemplo, linhas de financiamento para municípios de médio porte, cooperativas comunitárias de resiliência, micro‑empreendimentos adaptados ao clima.
- Mobilização de parcerias público‑privadas‑comunitárias: aliança entre prefeituras (que têm a escala local), empresas (que têm recursos e incentivos ESG) e comunidades (que têm o conhecimento local e o protagonismo). Uma sinergia que pode gerar modelos replicáveis de adaptação local e inteligente.
- Medir e comunicar o retorno socioeconômico da adaptação: apresentar casos concretos em que a adaptação evitou perdas, protegeu ativos, melhorou produtividade ou qualidade de vida — material que conversa com investidores, gestoras de fundos, bancos de desenvolvimento e autoridades públicas.
Nesse momento histórico, em que a COP30 coloca a adaptação no centro de sua agenda, a Aclimação se posiciona para contribuir com inovação, articulação e implementação. Nossa iniciativa faz parte de uma narrativa global que reconhece a adaptação como chave para a justiça climática, resiliência e desenvolvimento sustentável. Para tanto, vamos intensificar:
- a articulação com municípios, para apoiar planos de adaptação localizados, empoderar prefeituras e comunidades para acesso a recursos;
- a construção de parcerias com empresas alinhadas à agenda ESG e de resiliência, para projetos concretos de adaptação comunitária e urbana;
- a mobilização de instrumentos financeiros inovadores — seja de microfinanças, linhas de crédito verdes/resilientes, garantia de risco para pequenas iniciativas de adaptação — que permitam destravar recursos onde hoje ainda há barreiras;
- a comunicação clara dos benefícios socioeconômicos da adaptação — para que fique evidente a lógica de “investimento” e não apenas “custo”.
PARA ACESSAR A ÍNTEGRA DA OITAVA CARTA DA PRESIDÊNCIA BRASILEIRA DA COP 30, CLIQUE AQUI.

