{"id":518,"date":"2025-11-13T15:52:24","date_gmt":"2025-11-13T18:52:24","guid":{"rendered":"https:\/\/aclimacao.org.br\/?p=518"},"modified":"2025-11-13T16:01:39","modified_gmt":"2025-11-13T19:01:39","slug":"entre-o-petroleo-e-as-florestas-como-o-brasil-pode-liderar-na-cop30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/entre-o-petroleo-e-as-florestas-como-o-brasil-pode-liderar-na-cop30\/","title":{"rendered":"Entre o petr\u00f3leo e as florestas: como o Brasil pode liderar na COP30"},"content":{"rendered":"<h6>Foz do Rio Amazonas no Atl\u00e2ntico, com a costa do Brasil desde Oiapoque no Amap\u00e1 at\u00e9 Turia\u00e7u no Maranh\u00e3o (foto INPE)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A COP30 acontece numa encruzilhada hist\u00f3rica: a primeira d\u00e9cada do Acordo de Paris coincide com a supera\u00e7\u00e3o do limite de 1,5 \u00baC de aquecimento \u2014 o que transforma a confer\u00eancia numa chance clara de virar a p\u00e1gina da ret\u00f3rica para a implementa\u00e7\u00e3o concreta de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o. O desafio \u00e9 enorme. Em um cen\u00e1rio em que governos negacionistas e interesses das ind\u00fastrias f\u00f3sseis seguem influentes, Bel\u00e9m ter\u00e1 de converter promessas antigas em a\u00e7\u00f5es mensur\u00e1veis, porque o tempo para reduzir as lacunas entre metas e resultados \u00e9 curto. Como o Brasil pretende contribuir para esse salto da promessa para a pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>O governo brasileiro chegou \u00e0 presid\u00eancia da COP30 com tr\u00eas diretrizes: defender o multilateralismo como \u00fanico caminho plaus\u00edvel de resposta global; conectar o regime clim\u00e1tico \u00e0 vida cotidiana das pessoas, mostrando que a crise clim\u00e1tica \u00e9 um inimigo comum e imediato; e acelerar a implementa\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris, com \u00eanfase no financiamento e na execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas. Na pr\u00e1tica, essas prioridades se traduzem em esfor\u00e7os para avan\u00e7ar o Global Stocktake (GST, ou progresso mundial em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s metas do Acordo de Paris), identificar e corrigir lacunas nas NDCs (compromissos que os pa\u00edses assumem para reduzir suas emiss\u00f5es), pressionar pela efetiva\u00e7\u00e3o de fluxos de financiamento (com propostas que falam em reformar o sistema financeiro internacional para buscar algo em torno de US$ 1,3 trilh\u00e3o anuais para adapta\u00e7\u00e3o) e empurrar uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica ambiciosa: triplicar capacidade renov\u00e1vel, dobrar efici\u00eancia energ\u00e9tica e reduzir a depend\u00eancia de combust\u00edveis f\u00f3sseis, al\u00e9m de conter o desmatamento e ampliar o reflorestamento com fiscaliza\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<p>Bel\u00e9m tem um significado estrat\u00e9gico: n\u00e3o \u00e9 uma COP em petroestado e ocorre em um pa\u00eds democr\u00e1tico que permite ampla participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil e de povos ind\u00edgenas, o que tende a colocar maior press\u00e3o por resultados ambiciosos. O Brasil entra com alguma credibilidade \u2014 conseguiu reduzir o desmatamento na Amaz\u00f4nia em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior e teve queda nas emiss\u00f5es em determinados vetores \u2014 mas carrega contradi\u00e7\u00f5es palp\u00e1veis, como a previs\u00e3o de expans\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, inclusive na Foz do Amazonas. Essa tens\u00e3o entre interesses da economia f\u00f3ssil e a agenda verde ser\u00e1 um eixo central nas negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O panorama global complica o avan\u00e7o: nas \u00faltimas COPs foi fechado o \u201clivro de regras\u201d do Acordo de Paris e come\u00e7aram-se negocia\u00e7\u00f5es sobre financiamento, por\u00e9m a a\u00e7\u00e3o concreta permanece aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. Em 2025, apenas cerca de 30% dos pa\u00edses entregaram NDCs revisadas no prazo, e grandes emissores mant\u00eam compromissos insuficientes ou ausentes. Esse baixo n\u00edvel de ambi\u00e7\u00e3o eleva o papel do GST e a necessidade de press\u00e3o diplom\u00e1tica em Bel\u00e9m \u2014 cen\u00e1rio em que o Brasil, como anfitri\u00e3o, pode articular avan\u00e7os mesmo diante do fraco comprometimento global.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode ignorar o peso hist\u00f3rico e atual das ind\u00fastrias f\u00f3sseis. D\u00e9cadas de conhecimento interno sobre os riscos clim\u00e1ticos foram seguidas por &#8220;financeiriza\u00e7\u00e3o&#8221; de desinforma\u00e7\u00e3o: em COPs recentes lobistas do setor muitas vezes superaram em n\u00famero delega\u00e7\u00f5es de pa\u00edses vulner\u00e1veis. Em Bel\u00e9m, reduzir essa influ\u00eancia e garantir negocia\u00e7\u00f5es mais honestas \u00e9 parte da batalha por resultados efetivos.<br \/>\nA confer\u00eancia na Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m real\u00e7a dimens\u00f5es sociais e territoriais essenciais: prote\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas, combate a crimes ambientais \u2014 grilagem, garimpo ilegal, venda de madeira e tr\u00e1fico de esp\u00e9cies \u2014 e o fortalecimento da capacidade estatal de comando e controle. Essas medidas s\u00e3o, simultaneamente, prote\u00e7\u00e3o ambiental e legitimidade para o Brasil como anfitri\u00e3o comprometido com governan\u00e7a territorial.<\/p>\n<p>O que o pa\u00eds precisa entregar para que sua presid\u00eancia seja considerada bem-sucedida \u00e9 claro: uma NDC exequ\u00edvel e verific\u00e1vel que inspire confian\u00e7a; avan\u00e7os concretos no combate ao desmatamento e em pol\u00edticas de restaura\u00e7\u00e3o; mecanismos vi\u00e1veis para mobilizar financiamento para adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o; e processos de negocia\u00e7\u00e3o transparentes, com participa\u00e7\u00e3o plena da sociedade civil. Pergunto ao leitor: voc\u00ea acha que sediar a COP30 fortalece a posi\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica do Brasil no clima? Quais medidas internas acredita serem priorit\u00e1rias para que o pa\u00eds concilie desenvolvimento e prote\u00e7\u00e3o ambiental?<\/p>\n<p>A COP30 \u00e9 uma oportunidade singular para reafirmar lideran\u00e7a clim\u00e1tica, impulsionar a implementa\u00e7\u00e3o do Acordo de Paris e aproximar a negocia\u00e7\u00e3o internacional da vida das pessoas. O cen\u00e1rio global permanece complexo e a maioria das na\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o renovou ambi\u00e7\u00f5es suficientes, mas Bel\u00e9m pode ser o espa\u00e7o para transformar compromissos em a\u00e7\u00f5es mensur\u00e1veis. O \u00eaxito brasileiro depender\u00e1 da capacidade de conciliar ambi\u00e7\u00e3o com credibilidade interna \u2014 reduzir o desmatamento, apresentar uma NDC robusta, propor solu\u00e7\u00f5es reais de financiamento \u2014 e de enfrentar as tens\u00f5es entre a velha economia f\u00f3ssil e a transi\u00e7\u00e3o para um modelo mais verde. Se bem aproveitada, a COP30 ser\u00e1 mais do que vitrine: poder\u00e1 ser um passo concreto rumo \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o do que o mundo precisa.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foz do Rio Amazonas no Atl\u00e2ntico, com a costa do Brasil desde Oiapoque no Amap\u00e1 at\u00e9 Turia\u00e7u no Maranh\u00e3o (foto INPE) &nbsp; A COP30 acontece numa encruzilhada hist\u00f3rica: a primeira&#8230;<\/p>","protected":false},"author":4,"featured_media":519,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"nf_dc_page":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":{"0":"post-518","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politicas-publicas"},"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/aclimacao.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/1918px-Amazon_River_mouth_on_the_Atlantic.jpg?fit=1918%2C1080&ssl=1","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=518"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/518\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":523,"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/518\/revisions\/523"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/519"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/aclimacao.org.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}