Moradores do bairro Balneário dos Prazeres, em Pelotas (RS), colocam sacos de contenção proximo as casas para evitar inundações (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
A coluna da ombudsman da Folha, Alexandra Moraes, publicada no último dia 27 de junho, faz uma crítica simples e poderosa: o jornalismo brasileiro ainda tem dificuldade de reconhecer a crise climática quando ela acontece diante de nós, nas nossas cidades, nas nossas periferias, nas nossas encostas e áreas alagáveis. O texto afirma que a “discussão sobre mudança climática no país é deixada de lado diante de tragédias reais, enquanto efeito na Europa é percebido com mais facilidade”. E observa que ondas de calor na Europa costumam ser tratadas como parte evidente da emergência climática, enquanto enchentes, deslizamentos e desabamentos no Brasil frequentemente aparecem como fatos isolados de “cotidiano”, “trânsito” ou “previsão do tempo”.
Apenas uma semana atrás, o “alerta de misantropia” lembrou a fragilidade do sistema de aviso da Defesa Civil. Ironicamente ou não, o alarme hacker misantrópico fez bem mais barulho do que desastres reais dos dias atipicamente chuvosos deste junho…. cabe ao jornal, que mantém o slogan “em defesa da energia limpa”, aprofundar-se não só no aspecto econômico da transição energética mas também na cobertura das consequências do drama climático.
Essa diferença de enquadramento importa. Não se trata apenas de escolher uma editoria ou um chapéu de notícia. Quando uma tragédia climática é tratada como acidente local, perde-se a chance de mostrar suas causas estruturais: ocupação urbana desigual, falta de drenagem, moradias precárias, ausência de sistemas de alerta, baixa capacidade de adaptação e desproteção das populações mais vulneráveis. O desastre parece azar. Mas, muitas vezes, ele é o resultado previsível de riscos conhecidos e negligenciados.
Para a Aclimação Resiliência Climática, essa reflexão é central. A crise climática não é apenas uma ameaça futura, nem um problema abstrato de temperatura média global. Ela já está reorganizando a vida concreta de milhões de brasileiros. Afeta a casa que desaba, a criança exposta ao calor extremo, o pequeno comerciante que perde tudo na enchente, a família que vive sem seguro, sem alerta, sem obra de contenção, sem plano de emergência.
Dar nome climático a esses eventos não significa forçar explicações simplistas para cada chuva ou cada onda de calor. Significa perguntar melhor: o que mudou no padrão de risco? Quem está mais exposto? Que políticas públicas falharam? Que obras, protocolos, seguros, fundos e redes comunitárias poderiam ter reduzido o dano?
A importância do texto da ombudsman está justamente em cobrar da imprensa — e, por extensão, das nossas instituições — uma mudança de olhar. O Brasil precisa tratar adaptação climática como agenda de sobrevivência, justiça e investimento público. Enquanto a crise for narrada como uma sucessão de tragédias desconectadas, continuaremos chegando tarde demais. O primeiro passo para proteger vidas é reconhecer que o alerta já está soando.

